Masculinidade
O que a ciência diz sobre 'masculinidade tóxica'
Um estudo com quase 16 mil homens mediu de verdade o que o debate chama de masculinidade tóxica. O resultado surpreende os dois lados.
4 min de leitura

"Masculinidade tóxica" virou uma das expressões mais usadas e menos definidas do debate público. Pouca gente sabe que existe um jeito de medir isso de verdade, e o resultado é mais interessante do que qualquer lado da discussão costuma admitir.
Um estudo publicado em 2026 na revista Psychology of Men & Masculinities analisou uma amostra nacional aleatória de 15.808 homens heterossexuais da Nova Zelândia, olhando para oito dimensões associadas a masculinidade problemática: sexismo hostil, sexismo benevolente, narcisismo, rigidez de identidade de gênero, entre outras. Em vez de tratar "homem" como um bloco único, os pesquisadores usaram uma técnica chamada análise de perfis latentes, que agrupa pessoas pelo padrão real de respostas, não por uma média geral que esconde as diferenças.
O resultado: 35,4% dos homens formaram um perfil "Atóxico", com pontuação baixa em todas as oito dimensões. Outros 53,8% se dividiram em dois perfis com endosso baixo a moderado, ou seja, nem isentos nem extremos. Só os dois perfis restantes, somando 10,8% do total (7,6% chamados de "Tóxicos Benevolentes" e 3,2% de "Tóxicos Hostis"), mostraram o padrão que a maior parte do debate público chama de "masculinidade tóxica".
Os próprios autores resumem assim: "a maioria dos homens expressa níveis baixos a moderados de dimensões distintas de masculinidade tóxica... Apenas uma pequena proporção apresentou formas tradicionais de masculinidade tóxica... Assim, homens podem ser 'másculos' sem serem tóxicos."
Isso não significa que o problema não existe. Os 10,8% identificados no estudo carregam um padrão real, associado a maior risco de violência de gênero e maior identificação com discursos extremistas. Significa que tratar "ser homem" e "ser tóxico" como sinônimos erra o alvo, e provavelmente afasta da conversa justamente os homens que precisariam se engajar nela.
Vale uma ressalva de transparência: essa é uma amostra neozelandesa, não brasileira. Ainda não existe um estudo equivalente com a mesma metodologia no Brasil. Os mecanismos avaliados (sexismo, narcisismo, rigidez de papel de gênero) são conceitos amplamente estudados também aqui, mas o número exato (10,8%) não deve ser lido como um retrato da população brasileira, e sim como referência conceitual de um jeito mais preciso de estudar o tema.
O que os dados mostram
Fonte completa e contexto do levantamento
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